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Os arquétipos do ciclo menstrual



Ao longo do ciclo menstrual, é possível que se manifestem em nós diferentes padrões que podem influenciar nossos comportamentos e respostas emocionais: é o que aqui vamos chamar de arquétipos. Compreender a fisiologia do nosso ciclo menstrual e entender como esses arquétipos se manifestam em cada uma das fases é fundamental para que vivenciemos nossa ciclicidade de forma mais leve e sigamos conectadas com quem realmente somos, com as nossas potencialidades e com o que nossa alma feminina almeja alcançar. É um despertar para as mulheres cíclicas que existem dentro de nós.


Arquétipos são imagens primordiais, “instintivas”, coletivas, universais, históricas, presentes em diferentes culturas, surgidas e estruturadas a partir de experiências constantemente vividas pela humanidade, que se associam a símbolos específicos e podem se expressar em diferentes situações. Mulheres brasileiras, chinesas, gregas, africanas... ainda que nunca tenham tido qualquer contato com a cultura uma da outra, e tenham histórias e mitos diferentes, podem manifestar os mesmos padrões arquetípicos. Isso é incrível, não é?


Segundo Miranda Gray, podemos vivenciar quatro imagens arquetípicas principais, quatro mulheres diferentes agindo em nós, durante nosso ciclo menstrual: Anciã, Donzela, Mãe e Feiticeira. Esses padrões se expressam a partir das características comuns a cada fase do ciclo, por isso é fundamental compreender a sua fisiologia e as particularidades de cada mulher.


Anciã – morrer para renascer


A Anciã, ou simplesmente Velha, é representada pela clássica imagem da bruxa velha reclusa na floresta. Sábia, conectada consigo mesma e com o mundo sutil, ela está voltada para dentro de si, tem pouca energia para realizar coisas no mundo exterior, e tece sonhos e realizações em sua mente. Na mitologia, são bruxas anciãs Héstia, Nanã, Hécate e todas as que manifestam essas energias.


Ela é associada à lua negra/nova, ao inverno e à meia-noite, estando associada à fase menstrual de nosso ciclo, pois este costuma ser um momento em que temos menos energia física, com nossas forças voltadas para nosso universo interior. Tal como o inverno, a Anciã em nosso ciclo menstrual pede quietude, pausa, para que nossa intuição tome espaço e tenhamos uma abertura maior para acessar conteúdos inconscientes, nossos sonhos, memórias, percepções. E tal como as luas negra e nova, a Anciã se recolhe, acessa a sombra para manifestar luz nas fases seguintes. Ela se limpa, se cura, se transmuta. Se permite sombrear porque sabe que isso é necessário para depois iluminar. É no inverno da Anciã que reside a semente que brotará na próxima primavera, dando continuidade à vida.


Donzela – hora de agir


A Donzela é a representação da jovem, da menina antes da menarca ou da iniciação sexual. É a Virgem, no sentido de ser inteira em si mesma e não depender de nenhuma outra relação para se sentir completa. A Donzela fala da nossa menina interior, espontânea e cheia de energia. Ela corresponde a deusas como Ártemis, Atena e Ewá.


Associada à lua crescente, à primavera e ao nascer do sol, está relacionada à fase pré-ovulatória do ciclo menstrual, quando a Donzela começa a manifestar suas energias para o mundo exterior. Nessa fase do ciclo menstrual, tal como a fase crescente da lua e a primavera, é comum nos sentirmos mais dispostas, energizadas, fisicamente ativas, confiantes e independentes.


A Donzela é entusiasmada, extrovertida, tem iniciativa para fazer as coisas acontecerem, disposição para a vida social, maior capacidade de planejamento e ação, emoções mais estáveis e segurança em si mesma. Dependendo da forma como nos relacionamos com esse padrão, a Donzela pode também ser imatura, egoísta, rebelde e teimosa.


Mãe – plenitude e esplendor


A Mãe é a representação da mulher plena, fonte de amor, vida e prazer. É a força que impulsiona a criação, a fecundidade, fertilidade e compaixão. É a Mãe criadora e nutridora, que acolhe, doa e ampara. É abundante, expansiva e cheia de luz. Pode se relacionar com Maria, Gaia, Pachamama, Oxum, Iemanjá, Deméter, Lakshmi, Ísis e diversas outras deusas mães.


Tem relação com a lua cheia, o verão e o meio-dia. Em nosso ciclo menstrual, representa a fase ovulatória, quando nosso corpo produz o óvulo e dá sinais de que ele será liberado. É comum que, na fase Mãe, nos sintamos ainda mais dispostas, belas, vivas, plenas, com nossas energias voltadas para fora. Nossa energia sexual e de fecundidade também pode estar aflorada e nos sentimos mais disponíveis para os outros, para as relações, para o cuidado e realização.


Feiticeira – tempo para mim


A Feiticeira é a mulher que começa a envelhecer, geralmente relacionada, nos mitos e contos de fadas, a uma mulher má, indomável e furiosa. Ela é a sombra, e também a alquimista, que transmuta tudo em seu caldeirão. Com as anteninhas da intuição bem ligadas, ela tudo percebe e vê com lente de aumento o que não está indo bem na própria vida. Tem poder de destruição, limpeza e transmutação, ao mesmo tempo de se organiza e avalia seus pensamentos e ações. Ela é Kali, Cerridwen, Morgana e Yansã.


Tem relação com a lua minguante, o outono e o pôr-do-sol. Em nosso ciclo menstrual, ela é a fase pré-menstrual, é quando começamos a nos recolher para receber a menstruação, deixamos que o que não mais precisamos vá embora, nossas emoções podem ficar instáveis, nos concentramos menos e, em alguns casos, vivenciamos a Tensão/Síndrome Pré-menstrual, que aqui chamamos de Tempo Para Mim.



Quando estiver em alguma dessas fases, é possível que perceba as energias de cada padrão arquetípico querendo se manifestar. Acontece que, em nossa cultura, nem sempre conseguimos nos recolher quando a Feiticeira e a Anciã pedem, nem agir quando a Donzela e a Mãe desejam, e isso nos traz uma série de inquietudes ou até mesmo desequilíbrios em nosso ciclo (sintomas desagradáveis da TPM, cólicas menstruais, desajustes emocionais e hormonais etc.).


Muitas vezes negamos e calamos o arquétipo, sedamos nosso corpo com hormônios sintéticos que nos impedem de ovular e menstruar, agimos de forma contrária ao que a fase nos pede, por não querermos ver a sombra que ela nos mostra, por ser difícil olhar para nós mesmas, por querermos agir somente de acordo com o que esperam de nós... É claro que cada mulher tem a liberdade de fazer as próprias escolhas, de menstruar ou não, de gestar ou não, de parir ou não, e tudo está bem. O problemático é quando negamos quem somos e o que realmente queremos. Por isso ressaltamos tanto a importância de se conhecer, se observar e agir de acordo com a sua própria natureza. É conhecendo os arquétipos e a forma como eles se manifestam em nós (cada mulher tem necessidades e tempos próprios, tem os próprios padrões) que conseguiremos vivenciar nossos poderes.


Referências


GRAY, M. Lua vermelha. São Paulo: Pensamento, 2017.


LADO OCULTO DA LUA; COLETIVO IDÍLIO. Viva seu ciclo. Acesso em 29 de outubro de 2018. Disponível em <http://www.vivaseuciclo.com/>.

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